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22 de jul de 2009

Renuncie com Grandeza

RENUNCIE COM GRANDEZA!”
Por Carlos Chagas

Hoje, início do recesso parlamentar, o senador Pedro Simon estará no aeroporto de Brasília para pegar o avião. Para onde? Ele não sabe. Está com vergonha de descer em Porto Alegre. E em qualquer outro lugar. Não tem para onde ir, como falou.

Na véspera, num de seus mais contundentes discursos de uma vida parlamentar de quarenta anos, o representante do Rio Grande do Sul emocionou os colegas ao afirmar que se sentia responsável por tudo o que acontece no Senado. Pelos escândalos denunciados em cascata, verificados há anos na Câmara Alta. Como o mais velho dos senadores, já tendo completado oitenta anos de idade, pediu desculpas, apesar de ser um dos poucos sobre o qual nada pesa, em termos de irregularidades. Mas não fugiu à culpa de ter assistido há décadas, omitindo-se, o Senado transformar-se numa casa de horrores, onde todo o tipo de lambanças vem sendo praticadas. Disse que ninguém reagiu, inclusive ele, quando de três mil funcionários, o Senado passou a abrigar dez mil, boa parte nomeados através do nepotismo e de facilidades de toda ordem. Calaram-se todos, também, quando os senadores passaram a utilizar dinheiro público para viagens por todo o mundo, sem objetivo político. Ou quando os contra-cheques se viram aumentados sob os mais variados pretextos, de auxílio-moradia a pagamentos de despesas extraordinárias, na capital federal e nos estados.

Foi longa a catilinária de Pedro Simon, detalhando o enriquecimento de senadores e de funcionários através da aquisição de mansões, propriedades diversas e da abertura de polpudas contas no exterior. Falou de negócios especiais e da conivência dos senadores com uma situação por todos tida como normal.



PARA SARNEY, SÓ A RENÚNCIA

"Chegamos ao limite”, explodiu o senador Simon, centralizando as críticas em seu correligionário e até grande amigo, do qual foi ministro da Agricultura, José Sarney. Exigiu que o presidente do Senado não mais se licenciasse, mas renunciasse em definitivo, como fizeram em oportunidades até menos agudas Antônio Carlos Magalhães, Jader Barbalho e Renan Calheiros.

Ainda que Sarney não estivesse presente para ouvi-lo, alinhou a maioria das acusações pesadas sobre ele. A apropriação do antigo Convento das Mercês, em São Luís, para transformá-lo em mausoléu, propriedade privada dele e, após sua morte, de sua mulher, dos filhos, dos netos e demais descendentes de gerações futuras. Verberou a atitude do ex-presidente da República obtendo do Senado a revogação de lei estadual que devolvia o convento ao poder público, fato inédito na história do Brasil. Horrorizou-se pela confissão do próprio Sarney de haver viajado para a Itália às expensas de um banqueiro inescrupuloso, que arcou com todas as despesas da viagem. Mais ainda, pelo fato de um dia antes de o Banco Santos quebrar e de seu proprietário ir para a cadeia, haver sido retirado depósito de milhares de reais da conta de Sarney, enquanto os demais correntistas ficaram no prejuízo.

Simon não poupou o três vezes presidente do Senado por haver permitido a um neto formado em Harvard e na Sorbonne locupletar-se “num negócio de quinta categoria”, envolvendo empréstimos bancários para funcionários do Senado. Lembrou o número de parentes e afilhados de Sarney nomeados nos últimos anos e ainda recentemente para os quadros da casa. Citou a designação, pelo senador maranhense, de Agaciel Maia para a diretoria geral há quatorze anos, quando atos secretos começaram a esconder tramóias de toda espécie. E mais a aquisição de mansão em área nobre de Brasília sem declaração à Justiça Eleitoral.

Dirigindo-se a um José Sarney ausente, exigiu dele um ato de grandeza, a renúncia, capaz de deixar sua família em paz. “Getúlio Vargas saiu da vida para entrar na História”, disse, “mas José Sarney sai da História para cair na vida...” Não tem condições psicológicas para continuar presidindo o Senado.



SOBROU PARA O LULA

Em seu discurso, Pedro Simon também atingiu o Lula, por estar emprestando todo o respaldo a José Sarney. Exortou o presidente da República a ter mais respeito, porque de maneira ridícula estava imitando os generais da ditadura, usando o poder em causa própria. Acusou o chefe do governo de haver cometido um pecado mortal ao determinar à ministra Dilma Rousseff que fosse à residência do presidente do Senado hipotecar-lhe solidariedade.



NÃO VAI ACONTECER NADA

O fecho do pronunciamento do senador gaúcho foi profundamente pessimista. Concluiu que não vai acontecer nada no Senado, que as coisas continuarão do mesmo jeito. “Ficará tudo como está, nós estamos no chão. Já vi de tudo em minha vida política, mas nossa transformação em casa de escândalos, jamais.”

Referiu-se à constituição do Conselho de Ética, verificada pouco antes, acusando o líder do PMDB, Renan Calheiros, de conivente com a situação por haver indicado companheiros para compô-la não pela capacidade de cada um, mas pela fidelidade ao acobertamento de tantos escândalos, responsáveis pela redução do Senado a zero. “Senado? Para que Senado?”

Mesmo assim, suas últimas palavras continuaram um apelo dirigido a Sarney: “renuncie com grandeza, meu amigo!”

2 comentários:

Laguardia disse...

O pior é que nós, o povo brasileiro, temos assistido a tudo isto sem reagir. Tomamos uma atitude permissiva com relação a todos estes fatos e não temos externado com propriedade e vigor nossa indignação com relação a este estado de coisas.

Somos tão ou mais culpados do que Pedro Simon.

Laguardia disse...

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